O Desafio da Gestão do Centro Social Paroquial São João de Deus: Entre a Missão Social e a Sustentabilidade
- São João de Deus

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Por Ramires de Sousa, Presidente da Direção
Durante décadas, o Lar São João de Deus, hoje integrado no Centro Social Paroquial São João de Deus, foi e continua a ser gerido por voluntários dedicados, movidos por uma profunda vocação de serviço. Esse modelo, alicerçado na generosidade e no voluntariado, respondeu durante muito tempo às necessidades da nossa Comunidade, prestando um apoio inestimável a crianças, idosos, famílias carenciadas e tantos outros que ainda hoje dependem desta Instituição.
No entanto, os tempos mudaram. O Estado, através do Instituto da Segurança Social, passou a exigir um grau de profissionalização cada vez maior, aproximando as instituições sociais, na prática, de pequenas empresas. Obrigações fiscais, laborais, contabilísticas e um rigoroso quadro de normas de qualidade exigem hoje conhecimentos técnicos especializados.
Gerir o Centro Social Paroquial São João de Deus já não se resume à boa vontade. Implica dominar áreas tão distintas como:
Uma gestão financeira e orçamental rigorosa, com prestação de contas transparente ao Estado e à Comunidade.
A complexa gestão de recursos humanos: contratos, segurança social, formação e avaliação.
O cumprimento exaustivo de normas de segurança, higiene e certificação das respostas sociais.
A capacidade de elaborar projetos e candidaturas a fundos comunitários.
Um planeamento estratégico que garanta a sustentabilidade a médio e longo prazo.
Esta nova realidade exige profissionais qualificados, com formação adequada e experiência comprovada. A vocação, por mais genuína que seja, já não é suficiente.
E é aqui que reside o nosso maior desafio atual: como contratar recursos humanos qualificados quando os recursos financeiros são insuficientes?
Os acordos de cooperação com a Segurança Social, que deveriam ser o pilar do nosso financiamento, não têm acompanhado a inflação. Os custos com energia, alimentação, salários e manutenção disparam, enquanto as comparticipações do Estado ficam aquém do necessários para acompanhar os custos reais .
Por outro lado, as mensalidades das nossas Residentes são limitadas pelo valor das suas pensões, que são cada vez mais baixas. As tradicionais esmolas, hoje designadas por donativos, estão em franco declínio. A razão é dolorosamente simples: a pobreza em Portugal atingiu níveis preocupantes, afetando especialmente os mais velhos, que mal conseguem pagar a sua medicação. Como podemos esperar que sejam eles a financiar a instituição que os acolhe?
Está criado um círculo vicioso de difícil rotura:
O Estado exige maior profissionalização.
A profissionalização requer investimento em quadros qualificados.
Os subsídios estatais são insuficientes para esse investimento.
As fontes alternativas de financiamento (donativos) secam.
A instituição luta para sobreviver, quanto mais para investir.
A falta de gestão profissional compromete a eficiência e, a prazo, a própria sobrevivência.
Esta situação não é sustentável. É urgente encontrar soluções que permitam ao Centro Social cumprir a sua missão sem comprometer a sua viabilidade. A resposta terá encontrada em conjunto;
Revisão Urgente dos Acordos de Cooperação: O Estado precisa de reconhecer que os valores atuais não refletem os custos reais. Ignorar a inflação é condenar o setor social à asfixia lenta.
Financiamento Dedicado à Gestão: É crucial criar programas específicos para a contratação de gestores e técnicos especializados. Investir na gestão é investir na sustentabilidade e na qualidade do serviço prestado.
Consórcios e Partilha de Serviços: As instituições podem e devem unir-se para partilhar serviços de gestão, contabilidade ou jurídicos, reduzindo custos individuais sem perder qualidade.
Capacitação Acessível: Programas de formação gratuitos ou subsidiados para quadros das IPSS são essenciais para desenvolver competências internas.
Inovação no Financiamento: É imperativo explorar ativamente novas parcerias com empresas, fundos europeus e modelos de economia social inovadores.
No fundo, esta não é apenas uma questão interna da nossa Direção. É uma questão de dignidade social.
O Centro Social Paroquial São João de Deus presta serviços essenciais a quem mais precisa, substituindo-se, em muitas áreas, ao próprio Estado. Abandonar estes serviços por falta de apoio financeiro é abandonar os mais vulneráveis.
É tempo de reconhecer que a solidariedade não pode assentar apenas na generosidade de voluntários e na resiliência de instituições subfinanciadas. A missão social merece recursos à altura do seu valor imensurável. E os nossos idosos, crianças e famílias carenciadas merecem respostas sociais profissionais, dignas e sustentáveis.
O desafio está lançado. Resta saber se teremos, enquanto sociedade, a coragem coletiva de o enfrentar.




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